INAUGURAÇÃO DA EXPOSIÇÃO DE DINO JETHÁ

"Nas Ruas de Maputo"

9 Mar 00h00
INAUGURAÇÃO DA EXPOSIÇÃO DE DINO JETHÁ

Madeira de alta definição
Uma das nossas doenças, em Moçambique, é que fomos deixando de nos ver. Uma espécie de cegueira nos impede de nos contemplarmos como um povo em movimento, um país em mudança, uma nação em busca da sua própria identidade plural. À medida que Moçambique se foi tornando menos visível, mais distintas se tornaram entidades concretas: políticos de promessa fácil, empresários de duvidoso sucesso, e personagens de ascensão meteórica. À medida que se esboroaram utopias coletivas, esses rostos e esses nomes foram dando capa de revista e forneceram imagem para cartazes de publicidade. Terão o seu lugar, e isso parece ser incontestável. Mas converteram-se na árvore que não deixa ver a floresta.
Uma vez mais é uma delicada forma de arte, quase anónima, que nos devolve o retrato do que parece não ter rosto: a nossa vida quotidiana, essa jornada que vamos vencendo "à nossa maneira". O psikhelekedana, esse antigo e arreigado modo de esculpir o quotidiano, vem dizer-nos aquilo que, parecendo ser mais simples, é o alimento mais vital da nossa alma colectiva. Eis o que diz o psikhelekedana: estes somos nós, estas são as pequenas coisas que fazemos e que, ao serem feitas, nos fazem a nós. Nessa superfície baça nos revemos mais que em qualquer outro espelho.
Há anos que o artista Dino Jethá vem navegando contra a corrente que rouba o brilho e a autoria a uma arte que muitos insistem em classificar como artesanato. Como tantas vezes sucede o seu nome e a sua obra é mais conhecida e reconhecida fora do que dentro o país. Esta exposição é um modo de celebrar a qualidade do seu trabalho e contrariar a invisibilidade desta arte que faz falar a madeira. Mas esta exposição é sobretudo uma crónica da nossa cidade, é um requintado documentário da vitalidade com que a gente humilde responde pelo seu destino. E é como se, em madeira, fotografássemos o modo de saudar os vizinhos com esse tão nosso "estamos juntos".
Mia Couto