À conversa com Laura Nicole Tomm-Bonde

Colocando e Tirando a Capulana: Como as Mulheres Moçambicanas Lidam com a Opressão.

11 Abr 23h30
À conversa com Laura Nicole Tomm-Bonde

Uma pesquisa académica da autoria de Laura Nicole Tomm-Bonde
Biografia (na primeira pessoa):
Sou canadiana, enfermeira de medicina familiar e investigadora com especialidade em Planeamento de Sistemas de Saúde, Políticas e Género. A minha investigação de Doutoramento focou-se na forma como mulheres e raparigas lidam com a situação de VIH/SIDA em Moçambique. Para tal, usei uma metodologia de investigação qualitativa que combina a perspectiva construtivista da Grounded Theory com técnicas de mapeamento da análise situacional. A minha investigação foi financiada pelo Canadian Institute of Health Research e recebi o Prémio University of Victoria President por dois anos consecutivos. Actualmente desenvolvo o meu trabalho como consultora em Moçambique, oferecendo os meus conhecimentos especializados na área da saúde, saúde dos migrantes, planeamento estratégico de sistemas de saúde, género, violência contra as mulheres e raparigas e abusos sexuais infantis. Continuo a publicar artigos relacionados com a minha investigação de Doutoramento, segurança alimentar das mulheres e economia não-monetária.
O objectivo inicial deste estudo era responder à seguinte questão de investigação: Como é que as mulheres e raparigas lidam com a situação do HIV/SIDA em Moçambique? Como linha orientadora deste estudo, recorri aos princípios construtivistos da Grounded Theory em combinação com a filosofia Africana de Ubuntu. Sensibilizei-me teoricamente com a teoria critica feminista da interseccionalidade para garantir que reconhecia toda a informação relevante durante o processo de recolha de dados. Porque os estudos da Grounded Theory são desenvolvidos indutivamente através de um corpo de dados e evoluem à medida que a recolha de dados acontece, percebi que as preocupações dos participantes iam além do VIH/SIDA e envolviam antes um conjunto de opressões. Verifiquei assim que, este conjunto de problemas enfrentado pelos participantes, numa perspectiva conceptual mais alargada, estava relacionado com a opressão de género. Como resultado, o objectivo final do estudo mudou ligeiramente de modo a compreender como as mulheres e as raparigas gerem as suas vidas em relação com a opressão de género, como se socializam num contexto que sistematicamente cria oportunidades para o domínio social e politico sobre elas, como lidam com as manifestações de domínio e como controlam as realidades situacionais e características da opressão de género, caso o façam. Em consequência, desenvolvi uma teoria de base sobre a forma como as mulheres e raparigas lidam com a opressão de género em Moçambique. O processo social básico desta teoria é chamado Pôr e Tirar a Capulana, o qual pode ser entendido como a forma como mulheres e raparigas são socializadas dentro desta opressão de género em Moçambique e como elas encontram o seu caminho para fora dele. As quatro categorias principais que compõem esta teoria são: a) Pôr a capulana, b) Fechar os olhos, c) Alinhar no jogo, d) Tirar a capulana. Processos de segundo nível incluem, em Pôr a Capulana, por exemplo, processos como a Adaptação ao Patriarcado e Viver com Violência, o que demonstra como mulheres e raparigas navegam num contexto saturado de opressões. Processos de terceiro nível, tais como ser roubadas da sua auto-determinação sexual e aceitar inferioridade, explicam as consequências desses processos e com as quais as mulheres e raparigas são forçadas a viver. Esta é uma teoria, construída em dados e privilegiando as vozes das mulheres e raparigas de Moçambique, que espelha uma abordagem feminina construtivista e a filosofia Ubuntu. Argumento que este estudo oferece uma compreensão diferenciada da complexidade da opressão de género em Moçambique, o que pode apoiar no desenvolvimento de políticas relevantes e significativas.